Sobre Música e Paganismo - por Helder Teixeira
De todas as belas-artes a música é, sem dúvida, a mais citada e admitida biblicamente no culto de adoração a Deus. A bíblia está repleta de música: salmos, cânticos dos cânticos… Enfim é uma arte maleável que está presente tanto na igreja quanto no mundo. Maleável, principalmente pelo fato de que onde quer que esteja o homem, sempre haverá uma manifestação musical coerente com sua atitude e pensamento, seja político, religioso, filosófico ou mundano; a música estará lá; tão presente quanto ele próprio.
No presente século vemos um mundo quase que inteiramente dependente da música. Desde as grandes metrópoles às primitivas comunidades tribais do Xingu ou do Sri Lanka, se utilizam desta arte em ritos diversos. Algumas dessas comunidades nos servem como referencial de sistema musical, visto que não sofreram, ainda, influências do homem moderno em sua cultura.
Alguns povos da América Latina possuem um sistema tonal próprio com escalas de três sons dentro da oitava. Outros já distinguem cem diferentes sons dentro do mesmo intervalo. Nossa cultura musical ocidental dividiu a oitava em doze distintos sons. Mas, de onde vieram estas divisões? E... Por quê doze?
Pitágoras nasceu em Samos, por volta de 586 a.C.. Durante trinta anos de sua vida, acredita-se ter vivido no Egito, e viajado para o oriente passando pela Babilônia, Índia e China. Regressando estabeleceu-se em Crótona, sul da Itália, na Magna Grécia, onde viveu e fundou uma sociedade esotérica secreta onde difundia sua crença e conhecimento.
Na Grécia pré-socrática ainda não havia separação entre ciência e religião como em nossos dias. Assim, Pitágoras era um homem místico que se preocupava em buscar o conhecimento ao mesmo tempo em que se baseava em profecias e oráculos, se apresentando como um mensageiro da palavra divina e da verdade, buscando a suma dessa verdade pelo desvelamento da palavra divina.
O termo grego Alétheia, (verdade) é formado pela palavra léthe (noite, escuridão, esquecimento), acrescido da primeira letra do alfabeto grego, o a que possui um sentido de negação. Assim, a verdade tem o significado de não-noite, não-escuridão, não-esquecimento, traduzindo-se pragmaticamente como devoção à palavra, ou revelação. Desta forma elaborou suas teorias e principalmente a que diz respeito a tétraktys.
Pitágoras atribuía aos números tudo o que se podia ver ou pensar. Ao observar a criação elaborou o princípio numérico que regia o Universo. Segundo ele, o 1, a unidade (mônade), não era um número verdadeiro, mas o princípio gerador de todos os outros. Analogamente o 2 (díade) era tido como o gerador de todos os números pares. O primeiro verdadeiro número, o 3 (tríade), surgia da interação entre a mônade e a díade. O 4 (tétrade) representava a matéria com seus quatro elementos (terra, água, fogo, ar). Assim, todos os demais números podiam ser obtidos por simples adição a partir da unidade, criando assim uma progressão linear de números inteiros. Em síntese, acrescentando uma unidade à unidade se passa do ponto à linha, delimitada por dois pontos; acrescentando a esses dois pontos um terceiro ponto se passa ao plano mediante o triângulo. Enfim, acrescentando mais uma unidade se passa ao espaço mediante o tetraedro. Estão agora presentes todos os elementos de um mundo tridimensional: Unidade (ponto) x altura (reta) x largura (plano) x profundidade (sólido). O conjunto formado pela mônade, díade, tríade e tétrade compreende tudo: o ponto, a linha, a superfície e o espaço. Consequentemente, no pensamento filosófico pitagórico, a tétraktys dos números 1, 2, 3 e 4 é perfeita porque abrange todos os aspectos do universo material sólido. Sobre a tétraktys os pitagóricos prestavam juramento com essas palavras:
"Eu juro por aquele que transmitiu à nossa alma a tétraktys, na qual se encontram a fonte e a raiz da eterna natureza".
Como a soma 1 + 2 + 3 + 4 = 10, o 10 é considerado um número perfeito. A perfeição, ou seja, o completamento da manifestação universal é portanto alcançada com o número 10.
Uma vez compreendida – por intermédio da revelação divina – a verdade (Alétheia), esta fórmula Sagrada e Universal, que simboliza numericamente a expressão máxima da totalidade e perfeição, – o próprio Deus – todos os pensamentos e idéias a partir de então se baseavam e giravam em torno da tétraktys.
O símbolo pitagórico da tétraktys, na sua forma esquemática triangular, já existia no santuário de Delpho há mais de 2500 anos e coincide com o Delta maçônico. Ocasionalmente o Delta tem sido interpretado como um símbolo da Trindade, mas o caráter esotérico do Delta pitagórico nada tem a ver com o cristianismo, sendo a tétraktys um símbolo inegavelmente pagão.
Os sons musicais primários, as consonâncias perfeitas, nada mais são do que a própria tétraktys. Uma corda (som fundamental) foi tomada como unidade (mônade); depois dividida em duas partes iguais (díade), gerando a oitava; em três partes (tríade), gerando a quinta; e em quatro partes (tétrade), gerando a quarta do som fundamental. Assim a música interagia com o Universo e toda a criação. São os sons que simbolizavam a perfeição da criação e Daquele quem a criou. Os sons de Deus.
"O real surge da vibração das cordas de uma lira tetracórdica. O mundo é regido por uma melodia." (Pitagóricos)
Os demais sons de nossa escala surgiram pelo desdobramento sucessivo das tríades. Desta forma, a quinta resultante da divisão ternária da corda inteira, foi dividida novamente em três partes formando outra quinta, e assim foi-se repetindo as divisões obtendo 12 sons distintos dentro de uma mesma oitava.
Os mesmos graus, sons, intervalos, acordes, encadeamentos, consonâncias e dissonâncias – utilizados no sistema tonal – servem tanto a música secular como a sacra. Se os elementos que compõem tanto um quanto outro, – tipo, estilo ou facção filosófico-musical – são os mesmos, será justo concluir que só há um tipo de música para tudo e todos. Dizemos isto da música ocidental, ou da música do país cuja cultura foi fortemente influenciada pelo pensamento do homem grego. Assim sendo, não há separação real entre música sacra e profana. Afinal, ambas possuem a mesma raiz pagã.
Entretanto, apesar disto, a música sempre foi utilizada como forma de adoração, mas nem sempre houve tanta preocupação em se separar o que é sacro do que é profano. A música levada aos templos sempre foi a popular música da época, de acordo com os costumes culturais de cada comunidade. Não devemos julgar a música por sua origem, antes é louvável a intenção de Pitágoras de buscar conhecer a Deus, apesar de sua cultura mística, esotérica e politeísta. Certamente mais condenável torna-se a ignorância em desqualificar a música, ou partes como o trítono, dissonâncias, e ritmos, chegando-se até opinar sobre quais instrumentos são santos e quais são profanos sem, contudo, ter um conhecimento musical básico.
De forma alguma Deus se desagradaria de uma adoração genuína por motivo da utilização de determinados instrumentos. Se alguém quer agradar a Deus, Deus se agradará dele, contanto que sua adoração seja particular, sincera e não imitativa. O mais importante será a atitude de adoração e a intenção do coração do adorador. Desta forma o ritmo, acordes consonantes, dissonantes, variedades de instrumentos musicais – se tradicionais ou exóticos – e estilos, passam a ser objetos de adoração nas mãos de um adorador. E é exatamente e somente isto. Deve-se utilizar tudo para a glória de Deus, e no momento em que se faz restrições, aumenta-se a importância do que foi restrito diminuindo assim o produto final que é endereçado Àquele que deve ser exaltado acima de todas as coisas. Quando o objetivo é uma adoração à Deus todas essas coisas serão válidas.
Não sejamos ignorantes ou infantis quanto ao conhecimento da arte que Deus tem nos levantado e usado para Sua glória. Afinal… "Tudo o que tem fôlego louve ao Senhor. Louvai ao Senhor!" (sl 150.6).
Helder Teixeira
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Bibliografia
Livros
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Internet
FERRAZ, Henrique. Sistemas de Proporções Matemáticas. Revista Eletrônica de Ciências, São Carlos, n. 26, abr. 2004. Disponível em: http://www.cdcc.sc.usp.br/ciencia/artigos/art_26/proporcao.html. Acesso em 20 fev. 2005.
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[ 20/02/2006 ]